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Mar espelhado

segunda-feira, janeiro 31st, 2011 by

Sérgio da Costa Ramos

Olhando o mar espelhado da Baía Sul veio-me logo a lembrança o “Mar Português” do grande Pessoa, com os versos imortais que contam a tocante história das mães que “choraram pelos filhos e que por eles em vão rezaram”.

Mas o poeta “toma partido” e argumenta em favor do mar:

“Deus ao mar o perigo e o abismo deu/Mas nele é que espelhou o Céu…”

Então, bem no meio do poema, lança a pergunta e a resposta que se transformariam em lírica filosofia: – Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena.

O mar espelhado das baías da Ilha de Santa Catarina comove os corações marinheiros. Nosso manso mar que abraça a Ilha não é, definitivamente, o mar zangado da Bíblia. É o mar tranquilo do marinheiro-prosador Virgílio Várzea, o mar dos poetas Shelley e Byron, símbolo da dinâmica da vida. Tudo sai do mar e tudo a ele retorna. É o lugar onde nasceu a vida, a evolução, até a espécie humana. Mas parece que ao “nosso” mar falta o dinamismo dos mares rendilhados por marinas – ou trapiches, como queiram – espécie de “escada de embarque” pela qual o homem se põe ao largo da líquida via, para conviver com o Mundo. Mares como os velhos Mediterrâneo e Egeu, míticas “avenidas” do homem desde a mais remota antiguidade.

Faço essa digressão sobre o mar para assinalar que há um flagrante descompasso entre a relação “pessoas/automóveis” e “pessoas/barcos” nesta Ilha de 42 praias e nenhuma marina digna de menção. Já somos, proporcionalmente, a segunda cidade brasileira na penosa relação “carro/por habitante”, passando rapidamente da atual marca de “um carro para cada 1,8 morador”, rumo ao delirante “um-por-um”. E quantos barcos – quantas canoas? – temos “por pessoa” nesta que é uma Ilha, como todas, cercada de mar por todos os lados?

Nem se diga que navegar é um esporte caro. Navega-se não só a bordo de embarcações luxuosas. Os quadros do pintor Eduardo Dias mostram nossas baías coalhadas de barcos e barquinhos artesanais, canoas e caiaques, junto com “vapores e bergantins”. O mar aceita tudo o que flutua – bateras, boias, canoas bordadas, baleeiras açorianas, lanchas de arrojado [design], escunas e transatlânticos. A épica “Retirada de Dunquerque”, episódio inesquecível da II Grande Guerra, foi consumada até sobre “jangadas” de uma tábua só.

O mar é hospitaleiro, aceita barco a vela, a motor e a remo. Mas não basta amarrar uma poita na proa e largar o amigo flutuante em qualquer quintal marítimo: é preciso um “estacionamento”, onde o dono possa melhor “amarrar” o seu Fusca ou o seu Rolls-Royce. Pois é este “estacionamento” de barcos que suscita na Ilha uma incompreensível resistência. Garagem de ônibus, pode.

Até parece que o ilhéu incorporou certos temores açorianos associados ao fato daquele vulcânico arquipélago conviver com erupções e maremotos. O mar devia parecer aos imigrantes de 1750 um pélago profundo, um abismo habitado por monstros e esfinges. Talvez por isso o açoriano “no exílio” tenha edificado suas casas de costas para o mar – como se este fosse apenas o “escritório e trabalho”, fonte de sustento, mas cheia de riscos.

É preciso mudar essa medíocre idiossincrasia em relação à avareza dos trapiches numa ilha tão repleta de apelos e atrações naturais. Aqui, nesta “ilha dos casos e ocasos raros”, parece que a resposta de Pessoa ainda não foi providenciada. Vale a pena?

Ora, se nossa alma não continuar pequena, a Ilha de Santa Catarina haverá de ser um belo polo da navegação esportiva, um importante centro dos esportes náuticos, um bom trapiche para os marinheiros e para os turistas. Enfim, para todos aqueles que “navegam por precisão”, para viajar ou para recrear-se.

Elevemos nossa alma à altura da criação do poeta. Que os nossos mares não inspirem apenas “lágrimas de Portugal e do Mundo”, por óbvia falta de infraestrutura, mas que navegar nos valha a pena por nossa alma não ser pequena…

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