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Sérgio da Costa Ramos

segunda-feira, fevereiro 21st, 2011 by

(F)Ilha amada

21 de fevereiro de 2011

Nada foi fácil para a Ilha de Santa Catarina e sua vila-capital, ao longo de uma saga de vitórias e de reveses e de muita gente torcendo contra.

O primeiro “empresário” a fincar os pés na Ilha foi o bandeirante Dias Velho, que apostou no Paraíso insular, voltando suas costas para os tropeiros, que passavam por Lages a caminho do Rio Grande. Trouxe o seu pequeno capital para começar uma colônia e decidiu empregá-lo aqui, cativado por tanta beleza.

Inebriou-se, conta a lenda, pelos seus ocasos sangrantes, que espalhavam cintilações sobre as duas baías e iluminavam, em mechas de vários tons, a cabeleira da Serra do Mar.

Em 1678, tudo o que havia era uma cruz e uma capela, marcando o centro do povoado de Nossa Senhora do Desterro. Nada seria fácil para o desenvolvimento da vida desterrense. Bucaneiros ingleses assassinaram o fundador em 1679, o que atrasou o povoado em pelo menos meio século. Foram cinquenta anos de indiferença da matriz portuguesa até 1738, quando razões estratégicas – a Ilha ficava exatamente no meio do caminho entre o Rio de Janeiro e o rio da Prata – fizeram Portugal anunciar a criação da Capitania de Santa Catarina e o “mais sofisticado sistema de defesa do litoral sul do Brasil”.

Desterro era, até então, uma cidade-fantasma, onde viviam menos de 200 almas. Foi preciso que um padre – frei Agostinho da Trindade – angustiado com a falta de rebanho, viajasse até Lisboa com a intenção de recrutar fiéis.

Apelou ao governo e conseguiu, a muito custo, atrair 461 retirantes açorianos, vivendo o inferno das terras vulcânicas e chamuscantes – e longos surtos de peste e de fome. Em 1746 eles começaram a chegar, com o estímulo da Coroa. Os casais imigrantes recebiam “ajuda de custo”, ferramentas, armas, animais e terras para cultivar na Colônia. Em 1759 eles eram 4.929 novos catarinenses, espalhados pela Ilha e pelo Continente – no Ribeirão, Lagoa, Santo Antônio, Canasvieiras, São Miguel, São José, Enseada do Brito, Garopaba e Laguna.

Como sede da Capitania e da Província, a Ilha sempre foi contestada. Em meados do mesmo século 18, o governador Manuel Escudero já pretendera levar a capital para o lado do Estreito – iniciando um processo de “interiorização”.

Mais de cem anos depois, Hercílio Luz, em seu primeiro mandato (1894), chegou a estudar o projeto de transferência da Capital para Lages, às margens do rio Canoas. Mas foi Hercílio quem consolidou a Ilha-Capital, construindo, no segundo e inacabado mandato, o maior “monumento” da América do Sul: a ponte pênsil, batizada com o seu nome.

O orçamento da obra engolia duas vezes o do Estado. Visionário, Hercílio insistiu na ponte, inspirado, talvez, pelas bruxas açorianas: ao invés de se mudar para o Continente, trouxe a terra firme para a Ilha.

Construiu não só este “elo”, mas um símbolo. A ponte tinha o quarto maior vão livre do mundo, perdendo, à época, apenas para a Brooklyn Bridge, a Williamsburg e a Manhattan, todas sobre o East River, em Nova York.

Substituindo Lauro Muller de 1918 a 1922, e reconduzido como titular até 1926, mandato que não completou, Hercílio ousou instalar a luz elétrica e até tentou um bonde à eletricidade – um tramway que ligaria a Capital aos seus distritos.

Floripa, se pensarmos só no radical flor – vinculando-o à natureza inigualável – não deixa de ser um bom nome, comparado com aqueles que tentaram nos impor: Ondina, Redenção ou Exiliópolis.

Hoje, é um refúgio cosmopolita. Até o The New York Times já capitulou: “É o lugar para se estar no verão” – assinou o repórter Seth Sherwood, em 2009.

Tem gente com dor de cotovelo. E há os que a amam e os que a traem.

Fonte: ClicRBS

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