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Relato do Capitão Vilfredo Schürmann para recolocar o Aysso de volta ao mar!

domingo, maio 30th, 2010 by

Por Vilfredo Schürmann

O Aysso está na água

O veleiro Aysso está ancorado em Jurerê, ao norte da Ilha de Santa Catarina, na sede oceânica do ICSC – Iate Clube de Santa Catarina.

Nós escolhemos o ICSC como base para execução do projeto que estamos realizando na busca do submarino alemão U-513, afundado em 1943, distante 40 milhas (74Km) da costa catarinense.

Na enseada de Jurerê, em Floripa, não existem marinas para veleiros. Existem somente garagens para lanchas.

As embarcações ficam ancoradas ao largo em poitas de concreto, sem qualquer proteção dos ventos do quadrante norte e leste.

Havíamos feito, há três meses, uma poita de seis toneladas, super forte, com 10 metros e 15 metros de cabo de amarra, com resistência de 80 toneladas. O Aysso tem 25 toneladas. Essa poita foi construída para que o Aysso ficasse seguro nas piores condições de vento e mar, mesmo se houvesse um ciclone. Nesta última quarta-feira, dia 19/05, estava previsto pela meteorologia a passagem de um ciclone extra tropical por Florianópolis.

O alarme foi dado pela Marinha. Eu estava em Salvador, ministrando palestra, e não estava acompanhando o desenrolar dos acontecimentos.

Preocupado com a segurança do Aysso, o marinheiro Carlos (ele supervisiona o veleiro) entendeu que era necessário alongar o cabo de amarra e colocou dois cabos que usamos para atraque no cais. Esses cabos são mais finos e não tem a resistência dos cabos de amarra da poita.

Com os fortes ventos e o mar agitado com altas ondas, com o Aysso subindo e descendo as ondas como uma gangorra, um dos cabos não resistiram. O veleiro ficou a deriva indo em direção a praia de Jurerê.

A estrutura do ICSC é excelente e sempre tem barcos infláveis que fazem a ronda dia e noite, cuidando dos veleiros que estão ancorados. Nesta noite devido à ressaca que estava por vir e por ordem de um dos diretores, os barcos de apoio do clube foram recolhidos e puxados para terra.

Os marinheiros do clube estavam de vigília e viram um veleiro de 40 pés se desgarrar dos cabos da poita indo em direção da praia. Depois foi uma lancha cabrasmar de 32 pés e por fim o nosso veleiro. Se os botes (infláveis) estivessem na água, as três embarcações seriam salvas. No Aysso fica sempre uma âncora na proa pronta em casos de emergência.

Estava dormindo e recebi um telefonema do amigo velejador Gusmão com a notícia que o Aysso estava encalhado na praia de Jurerê.

Por telefone, tomei todas as providências necessárias, comunicando o ocorrido a Marinha. Consegui um vôo de Salvador ao Rio de cheguei em Florianópolis ao meio dia.

Quando cheguei ao local do acidente, vi primeiro os outros dois barcos de fibra com sérios danos.  De longe olhei o Aysso deitado na areia da praia.

Fui caminhando devagar pela praia e muitas pessoas vinham conversar comigo lamentando o ocorrido. Quando cheguei perto do Aysso, veio ao meu encontro o Gusmão, o Mourinha que construiu a poita e o Carlos, nosso marinheiro. O Aysso estava adernado (inclinado) uns 80 graus e a quilha estava enterrada na areia.

Tirei o sapato, arregacei as calça e dei uma volta ao redor do Aysso com água pelas canelas. Eu fiquei preocupado com o leme, esse seria o ponto mais frágil.

Estava intacto. Fiz uma vistoria no casco e não havia nenhum amassado e nenhuma trinca nas chapas de aço.

Com um pouco de dificuldade, entrei no interior do Aysso e para meu espanto o barco estava totalmente seco. Nenhuma gota de água.

Me troquei, coloquei um bermuda e sai para conversar com Gusmão e o Mourinha.

Eles já haviam tomado iniciativa colocando duas grandes âncoras tipo almirantado e um cabo amarrado em uma poita, distante uns 100 metros.

Um outro cabo foi amarrado entre a popa do barco e em um cunho na praia. Os três cabos das ancoras estavam atados em três catracas do Aysso e os cabo da popa também.

O Aysso tem dois mastros. As duas adriças que levantam as velas mestras e mezena foram emendadas e levadas para a praia. A ideia era que, quando a maré enchesse, um grupo de seis pessoas em cada drica puxassem, fazendo uma alavanca para adernar mais o barco e tirar a quilha da areia.

Colocamos uma cinta reforçada passando por trás no final da quilha e subindo cruzada em direção a proa do barco. Da proa um cabo de 150 metros foi engatado na popa de um rebocador.

Tínhamos no Aysso três pessoas catracando os três cabos da âncora e uma pessoa catracando o cabo de popa. O barco estava deitado paralelamente à praia e com esse procedimento iríamos girar no seu eixo e deixar de frente para o mar. Se não fizéssemos esse procedimento dificilmente removeríamos.

Quando a maré estava no nível mais alto, iniciamos a operação. Foi um trabalho bem coordenado, com as catracas trabalhando, o pessoal na praia puxando os cabos para adernar o barco e o rebocador puxando o barco.

O Aysso se movimentava de um lado para o outro, dando uns pulos. De repente, quando a profundidade aumentou, ele deu um salto, saiu da posição de 80 graus, balançou de um lado para o outro ficando na vertical.

Já navegando e ainda rebocado, fui no interior e estava tudo ok. O rebocador soltou as amarras e voltou para o centro da cidade. A Marinha também nos auxiliou no resgate dando todo apoio ao resgate.

Tenho que agradecer a todas as pessoas que nos ajudaram neste resgate, ao ICSC que cedeu seus funcionários para nos ajudar, os amigos e tripulantes do Aysso, o Marcos, o Kiko e Todd.

O marinheiro Carlos que ficou toda a noite cuidando do Aysso, o Moura que providenciou os cabos e não arredou pé durante todo resgate e o Gusmão que coordenou toda a operação.

O Aysso está ancorado no mesmo local e agora, claro, bem amarrado.

Fonte: Família Schürmann

2 Responses to “Relato do Capitão Vilfredo Schürmann para recolocar o Aysso de volta ao mar!”

  1. carlos alberto de melo disse:

    Tenho curosidade de saber, como a quilha suportou a pressão do arrasto do barco encalhado na praia. Fiquei apreensivo ao ver a notícia do encalhe do belo Aysso acompanhei a viagem , via dvd, ao redor do mundo de fato . Parabéns pela salvatagem, lugar de veleiro é no mar. Bons ventos. Capitão Melo ( mas do exército)

  2. ararê disse:

    A quilha só aguentou porque o barco todo é de aço. Se fosse de fibra com certeza não aguentaria. E a quilha é forte o suficiente para apoiar todo o peso do barco.
    Abraço,
    Alexandre